Bradesco planeja fechar entre 600 e 700 agências e pontos de atendimento neste ano

Marcelo Noronha, 60, comanda plano de transformação de cinco anos. Com criação do segmento Principal, instituição visa aumentar participação em clientes mais ricos (Por Júlia Moura e Carolina Mandl) – foto Paulinho Costa feebpr –

Cerca de dois anos depois de apresentar o plano de reestruturação do Bradesco, a gestão de Marcelo Noronha, 60, vê resultados das mudanças no crescimento do lucro e da rentabilidade —apesar de investidores mostrarem certa inquietação com o ritmo.

Nesta sexta-feira (6), as ações preferenciais do banco recuaram 2,55% em resposta a uma previsão de desempenho em 2026 mais cautelosa que o esperado. Nos últimos meses, os papéis deram um salto de 65%.

O banco projeta um crescimento da carteira de crédito neste ano entre 8,5% e 10,5%. Já a expectativa para margem financeira líquida vai de R$ 42 bilhões a R$ 48 bilhões. Em 2025, esses números ficaram em 11% e R$ 40 bilhões, respectivamente.

Apesar da pressão por resultados, Noronha diz que se atém ao plano traçado em 2024. Com fechamento de agências, investimentos em tecnologia e aumento de participação de mercado, especialmente na alta renda, o banco recupera aos poucos a sua rentabilidade.

Para se adaptar aos novos tempos de concorrência com fintechs, o plano em marcha muda a estratégia de um banco que tradicionalmente gostava de ter agências em pequenos municípios brasileiros.

O ROAE (Retorno sobre o Patrimônio Líquido Médio) do banco saiu da casa dos 20% em 2019 para uma mínima histórica de 10% em 2023, impactado pela inadimplência na pandemia.

A situação provocou uma mudança na gestão e Noronha, então vice-presidente do varejo do Bradesco, assumiu o comando do banco em novembro de 2023 e deu início a um plano de cinco anos para colocar a instituição de volta ao topo.

No quarto trimestre de 2025, o banco registrou um ROAE de 15,2%, ultrapassando a taxa Selic pela primeira vez sob a nova direção. O mesmo índice nos concorrentes privados ficou em 17,2% no Santander Brasil e em 23,4% no Itaú Unibanco.

Em entrevista à Folha, Noronha detalhou o plano de transformação e comentou o papel do FGC (Fundo Garantidor de Crédito) após o caso Master.

REESTRUTURAÇÃO
A tarefa de transformar o banco está sob a responsabilidade de um chamado escritório de transformação, com 800 funcionários, em diferentes frentes. Semanalmente, Noronha acompanha o progresso.

O esforço do banco em crescer na alta renda tem começado a dar resultado, com o Bradesco fechando mais transações financeiras com cada cliente a partir da criação de um novo segmento, o Principal. Essa marca é voltada para o atendimento dos clientes acima do Prime, mas antes do Private, com renda acima de R$ 25 mil e investimentos acima de R$ 300 mil.

Em novembro de 2024, eram três escritórios da nova marca. Hoje, são 62 contemplando 320 mil clientes em 36 cidades. O objetivo para o fim deste ano é chegar a 800 mil clientes em 70 cidades, com cerca de 110 escritórios.

O objetivo do banco é aumentar a participação de mercado nesses segmentos de mais alta renda e, em seguida, ampliar o relacionamento com um público que oferece um alto retorno, com menos risco de inadimplência e maior ganho em serviços.

“O Principal é um escritório, não uma agência mais. Lá tem ATM [caixa eletrônico] para você sacar e fazer alguns pagamentos, se quiser. Hoje, 99% das transações são por canais digitais, mas esse cliente do Principal valoriza saber onde você está, quem é o gerente”, disse.

Na parte tecnológica, o investimento está focado na migração dos sistemas para a nuvem. Há também um gasto com pessoal, com a contratação direta de mais funcionários para essa área. Antes da reestruturação, 70% dos funcionários desse setor eram terceirizados, agora essa fatia caiu para 60%. A tendência é que contratações próprias ganhem mais espaço.

Noronha não quis dizer qual é a meta do banco em termos de rentabilidade, mas afirmou que o retorno sobre o patrimônio líquido anualizado deve fechar 2026 acima dos 15,2% entregues no quarto trimestre de 2025.

FECHAMENTO DE AGÊNCIAS
O banco planeja fechar entre 600 e 700 agências e pontos de atendimento neste ano com o objetivo de reduzir custos. Em 2025, o Bradesco fechou cerca de 1.400 pontos, depois de ter encerrado uma quantidade similar no ano anterior.

Com a competição mais acirrada com as fintechs, que oferecem serviços gratuitos, o banco tem visto sua receita de conta corrente cair, assim como a anuidade de cartão para pessoas de mais baixa renda.

“Você ter atendimento em papel custa uma fortuna. A gente tinha receita com conta corrente, que hoje cai, e tinha receita com anuidade de cartão”, afirmou o executivo, acrescentando que o custo de transportar dinheiro também é elevado.

“A gente perdeu receitas que, na hora de fazer todo esse processo, você deixou de pagar a conta. Por isso que tem de afunilar no digital, não tem alternativa.”

De acordo com o CEO, há cidades em que não vale a pena estar mais. “Cidade abaixo de 20 mil habitantes é bem complicado de rentabilizar. O Bradesco Expresso, porém, continua em 100% dos municípios brasileiros, com mais de 39 mil representantes.”

O Bradesco Expresso funciona em estabelecimentos comerciais, como mercadinhos e farmácias, que recebem dinheiro e têm um tablet com os sistemas do Bradesco.

FINTECHS
O executivo diz que o modelo de negócios de fintechs como o Nubank, cujo atendimento é 100% digital, o preocupava no passado.

“Isso tirava meu sono lá em 2018, 2019. Tirava mesmo. Agora, temos umas coisas muito boas também. Temos uma capacidade de competir muito maior do que a gente tinha”, disse ele.

Para competir com as fintechs, a saída encontrada tem sido fazer um atendimento mais digital, fora da agência para os clientes de mais baixa renda. “Hoje que a gente está com 19 milhões de clientes, fully digital. Atendimento é só digital. Não é mais agência.”

Para ele, as fintechs se posicionaram para a baixa renda, mas não conseguiram ainda ganhar o público de alta renda. Ele também diz que não quer parte dos clientes de estratos econômicos mais baixos que as fintechs possuem. “Tem clientes ali [de baixa renda] pelos quais eu não quero competir, não. A gente já testou. Tem grupos muito complicados, porque são inadimplentes mesmo.”

FGC
Noronha evitou comentar o caso Banco Master, dizendo que prefere deixar isso a cargo do Banco Central, do liquidante e da Justiça. “Agora, se você olha para o fato em si, é bizarro.”

O executivo, porém, afirmou que o evento levanta questões sobre mudanças nas regras do Fundo Garantidor de Créditos, como forma de evitar um novo caso semelhante. “Você oferecer o FGC como proposta de valor, como oferta, é um absurdo”, disse ele.

Os parâmetros, segundo ele, deveriam incluir um limite para a captação via Certificados de Depósito Bancário (CDB) de acordo com o tamanho e a alavancagem do banco, além de um teto de distribuição dos títulos de uma instituição por plataforma de investimento.

Para ele, a cobertura da garantia do FGC também poderia se limitar a 100% do CDI, como uma forma de levar o investidor a olhar mais o risco das aplicações. O Master chegou a pagar 140% do CDI a aplicadores.

“Se você quiser, pode aplicar a 150%, mas os 50 pontos percentuais de diferença são risco seu. Até porque as pessoas passam a fazer uma curadoria melhor.”

ELEIÇÃO PRESIDENCIAL
“Vai ser uma eleição tão disputada quanto a passada. E não vai mudar a nossa vida [como Bradesco] por conta disso. Nós estamos crescendo, investindo e vamos em frente”, disse Noronha.

Participantes do mercado financeiro, segundo ele, devem esperar volatilidade ao longo do ano por causa das eleições, como normalmente acontece em anos eleitorais.

O presidente do Bradesco vê a continuidade do fluxo de dólares para o Brasil como dependente dessa volatilidade e das oportunidades que esses investidores enxergam. “Mas eu acho que eles estão enxergando coisa boa aqui dentro”, afirmou. Em janeiro, o país teve um fluxo de dólar positivo de US$ 5 bilhões.

A preocupação maior do executivo está com a polarização das eleições. “O mundo ficou meio dividido e para mim isso é um fenômeno muito de rede social”, disse. “A gente não tem capacidade de sentar aqui e conversar com quem tem uma opinião diferente da minha. Eu acho que a gente tem que acabar com esse radicalismo e ter mais a capacidade de diálogo para construirmos um Brasil melhor.” (Fonte: Folha de SP)

Fonte: FEEB PR